O comunicador Luciano Potter defendeu a escuta como a principal habilidade de quem produz conteúdo hoje, em palestra no Hotmart Fire Festival. Em entrevista ao 98 News, ele afirmou que a internet democratizou a fala, mas deixou o ambiente barulhento demais. “Hoje o dia continua tendo 24 horas, todo mundo pode falar e todo mundo está falando”, disse.
Potter é jornalista formado em 2002 e trabalha com rádio há cerca de 25 anos, a maior parte deles em Porto Alegre. Ele escolheu falar sobre escuta num evento em que quase todos os palestrantes falaram sobre produção e audiência.
O argumento parte da própria profissão. Segundo ele, uma reportagem sempre foi ouvir um lado, ouvir o outro e entregar isso ao público. A escuta nunca deixou de estar no DNA do comunicador, só ficou soterrada pelo volume de gente falando ao mesmo tempo. A internet acabou com monopólios de atenção e abriu espaço para novas vozes. Em contrapartida, tirou do público a capacidade de selecionar e entender o que consome.
O que mudou na vida de Potter
A virada veio com o nascimento dos dois filhos, em 2018 e 2019, quase 20 anos depois de ele começar a trabalhar como estagiário de rádio.
“É impossível você se conectar com uma criança sem verdadeiramente escutar a criança”, afirmou. Para ele, entrar no mundo da criança exige ajoelhar, ir para o chão e brincar. O raciocínio que tirou dali é simples: criança pergunta o tempo todo, e perguntar é querer ouvir. “Se ele fez 400 perguntas, ele quis ouvir 400 respostas.”
Outro empurrão veio de um ouvinte. Potter apresenta o “Potter Entrevista”, disponível no YouTube e exibido na Rádio Gaúcha aos sábados à noite. Um seguidor antigo mandou um comentário dizendo que o melhor programa da história dele era justamente aquele em que ele menos falava.
A partir daí, segundo Potter, a mudança se espalhou. Ele afirma ter ganhado no casamento, na relação com os filhos, com os amigos, nas entrevistas e nas palestras. Empresas também passaram a chamá-lo para falar do tema.
“Todo locutor é um creator desde sempre”
Potter apresenta o “Vida de Creator”, na 98 News, que ele define como o primeiro programa de creator economy do Brasil.
A tese que ele levou ao Hotmart Fire é que a função não é nova, a nomenclatura é. “Todo locutor é um creator desde sempre”, disse, lembrando que quem trabalha em rádio produz conteúdo diariamente há décadas. Ele fez a mesma provocação em conversa recente com a Associação Mineira de Rádio e Televisão (AMIRT), em Belo Horizonte.
No palco, Potter também admitiu um desconforto pouco comum em evento de creators: ele não sabe o que entregar nas próprias redes sociais. “Eu estava absolutamente resolvido na minha vida. 25 anos fazendo uma coisa todos os dias”, afirmou. O rádio é território conhecido, o Instagram não. Na entrevista ao 98 News, ele foi lembrado de que a palestra que acabara de fazer era exatamente o conteúdo que procura. Potter respondeu que aquilo é vida real, e concluiu que a angústia controlada empurra para frente em vez de travar.
Como treinar a escuta, segundo Potter
A dica que ele deixou para quem está começando ou recomeçando depois dos 40 e dos 50 é ampliar o sentido da palavra escuta.
- Escutar não vale só para pessoas: vale para um livro, um filme, uma série, uma conversa de elevador
- Escutar é, antes de tudo, um ato de respeito e de humildade
- É um treino progressivo, que só mostra resultado com repetição
- Na prática, significa dar um passo atrás antes de falar e criar
A comparação que ele usou é com natação. Potter contou que começou a nadar há cerca de seis meses e já vê evolução. Na véspera da entrevista, nadou 1.200 metros em meia hora no Minas Tênis Clube, em Belo Horizonte. Em Porto Alegre, ele é sócio do Grêmio Náutico União.
