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Belo Horizonte, capital da inadimplência: quando a conta chega antes do salário

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Belo Horizonte recebeu um título que ninguém gostaria de carregar: é a capital mais inadimplente do país (Foto: Pixabay)

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Belo Horizonte recebeu um título que ninguém gostaria de carregar: é a capital mais inadimplente do país. Segundo a Radiografia do Endividamento de 2026, estudo da FecomercioSP, seis em cada dez famílias belo-horizontinas começaram o ano com alguma conta em atraso. Para ser mais preciso: 65% das famílias da cidade tinham dívida vencida.

O dado é duro. E fica ainda mais grave quando comparado com a própria evolução recente da capital mineira. No fim de 2023, metade das famílias de BH estava inadimplente. Um ano depois, esse índice subiu para 55%. Agora, chegou a 65%. Ou seja: em pouco tempo, Belo Horizonte saiu de uma situação preocupante para um quadro de alerta vermelho.

A comparação com outras capitais ajuda a dimensionar o problema. João Pessoa, na Paraíba, aparece no extremo oposto, com apenas 15% das famílias com contas em atraso. Teresina, no Piauí, registra 40%. Já Belo Horizonte dispara na frente, não por boa notícia, mas por uma combinação perigosa: custo de vida alto, renda apertada, crédito fácil demais e orçamento doméstico cada vez mais frágil.

O estudo também mostra que, na média nacional, 30% da renda das famílias já está comprometida com dívidas — mesmo quando elas ainda não estão em atraso. Em Belo Horizonte, a situação é especialmente delicada porque as dívidas chegam a quase R$ 5 mil por mês, enquanto a renda média fica em torno de R$ 8,2 mil. É uma conta que não fecha com folga. Fecha no sufoco.

Quando uma família compromete parte tão grande da renda com prestações, cartão, financiamento, empréstimo e carnê, qualquer imprevisto vira tempestade. Um remédio mais caro, uma manutenção no carro, uma conta de luz mais pesada, o aluguel reajustado ou uma perda parcial de renda são suficientes para empurrar o orçamento para o buraco.

E aqui está o ponto central: inadimplência não é apenas uma estatística financeira. É um retrato social. É a fotografia da família que escolhe qual conta pagar primeiro. É o trabalhador que entra no cheque especial para comprar supermercado. É o aposentado que ajuda filhos e netos com o cartão. É o pequeno consumidor que virou refém do parcelamento eterno.

Também é preciso dizer com todas as letras: crédito não é renda. Cartão de crédito não é aumento de salário. Empréstimo não é solução permanente para orçamento desequilibrado. Durante algum tempo, o crédito empurra o problema para frente. Depois, ele volta maior, mais caro e com juros montados num cavalo de corrida.

Belo Horizonte precisa olhar para esse dado com seriedade. Educação financeira é importante, sim. Mas não basta jogar a responsabilidade apenas nas costas das famílias. Há um problema de renda, de custo de vida, de moradia, de transporte, de alimentação e também de uma cultura de consumo baseada no “compra agora, vê depois”.

A capital mineira, que já foi símbolo de classe média estável, orçamento organizado e vida urbana previsível, agora convive com uma realidade mais áspera: muita gente trabalha, recebe, paga dívida e fica sem dinheiro antes do mês acabar.

O título de capital mais inadimplente do país deveria servir como choque de realidade. Porque uma cidade endividada não consome bem, não planeja bem e não vive bem. A conta atrasada não pesa apenas no bolso. Pesa na cabeça, na mesa de jantar e na paz doméstica.

BH precisa reencontrar o equilíbrio. Porque quando a dívida vira rotina, a esperança começa a ser parcelada também.

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Paulo Leite

Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

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