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Do rio à vitrine de luxo: o valor perdido na cadeia do pirarucu

Por

Izak Carlos

Izak Carlos
  • 22/08/2025
  • 13:09

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Como explicar que um produto vendido por milhares de reais em boutiques internacionais gere tão pouco valor para quem o pesca? (Adriano Gambarini/OPAN)

Como explicar que um produto vendido por milhares de reais em boutiques internacionais gere tão pouco valor para quem o pesca? (Adriano Gambarini/OPAN)

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A cadeia produtiva do pirarucu, peixe gigante da Amazônia, revela um dilema estrutural que vai muito além da sustentabilidade ambiental. Como explicar que um produto vendido por milhares de reais em boutiques internacionais gere tão pouco valor para quem o pesca? Por que o couro do pirarucu, tratado como matéria-prima nobre, não se traduz em renda digna para as comunidades ribeirinhas? E o que a economia tem a ver com isso?

A resposta está na estrutura de mercado: um oligopsônio silencioso. O oligopsônio ocorre quando poucos compradores concentram poder sobre muitos vendedores. No caso do pirarucu, são poucas empresas que compram o peixe e seu couro, ditando preços e condições. Os pescadores, por sua vez, têm baixa capacidade de barganha, pouca informação sobre o mercado final e quase nenhum acesso direto aos canais de comercialização.

Isso compromete a geração de valor na base da cadeia. Mesmo com manejo sustentável e certificação ambiental, o valor agregado do produto é capturado majoritariamente por intermediários e marcas de luxo. A transformação do couro em bolsas e acessórios de alto padrão multiplica o preço final, mas essa valorização não é compartilhada com os agentes primários da cadeia. O resultado é uma estrutura assimétrica, onde o capital simbólico e financeiro se concentra longe da Amazônia. A lógica do oligopsônio também afeta a inovação e a diversificação local.

Sem incentivos econômicos, os pescadores não conseguem investir em tecnologias e beneficiamento, nem em formas de agregar valor ao produto. A dependência de poucos compradores perpetua a vulnerabilidade econômica e limita o potencial de desenvolvimento regional. Para romper esse ciclo, é preciso repensar a governança da cadeia produtiva. Modelos cooperativos, plataformas digitais de comercialização direta e políticas públicas voltadas à capacitação dos produtores podem redistribuir o valor de forma mais equitativa.

A sustentabilidade precisa ser também econômica, e isso exige enfrentar distorções de mercado. Em economia não existe alquimia: valor não se cria apenas com discurso. Ele precisa ser distribuído com inteligência e justiça ao longo da cadeia.

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Izak Carlos

É economista-chefe do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG). Formado em economia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), com MBA em Gestão Financeira pela Fundação Getúlio Vargas, mestrado e doutorado em economia aplicada pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), já atuou como economista, especialista e consultor econômico da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG). Izak também é sócio-diretor da Axion Macrofinance e Especialista do Instituto Millenium.

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