A Semana do MEI, realizada em Belo Horizonte pelo Sebrae Minas e pela CDL/BH, não deve ser vista apenas como mais um evento de capacitação na agenda da cidade. Ela é, antes de tudo, um retrato muito claro da nova economia brasileira, menos industrial, mais urbana, mais pulverizada, mais informal em sua origem e cada vez mais dependente da capacidade de transformar esforço individual em negócio sustentável.
Até o dia 14 de maio, o Centro de Convenções da CDL/BH recebe uma programação com mais de 60 atividades gratuitas, incluindo oficinas, palestras e consultorias voltadas aos microempreendedores individuais. As atividades acontecem das 9h às 18h, na sede da entidade, na Avenida João Pinheiro, no bairro Boa Viagem.
O tamanho que mostra a importância
Mas o dado que realmente importa é outro. Belo Horizonte já aparece como a terceira cidade do Brasil com maior número de MEIs em atividade. São mais de 294 mil microempreendedores individuais na capital mineira, atuando especialmente em segmentos como beleza, vestuário, calçados e promoção de vendas. Em Minas Gerais, são cerca de 1,8 milhão de MEIs, o equivalente a mais de 63% das empresas do estado.
Quando se fala em MEI, não se está falando de economia marginal. Está se falando da base viva da economia real. Está se falando da manicure, do eletricista, da costureira, do barbeiro, do entregador, do técnico de celular, da vendedora de comida, do prestador de serviço, do pequeno comerciante, da pessoa que muitas vezes acorda antes do sol e fecha o caixa depois que a cidade já apagou as luzes.
O MEI é o Brasil que trabalha antes de reclamar. E muitas vezes trabalha sem crédito, sem orientação, sem rede de proteção, sem escala, sem tecnologia e sem tempo para errar.
É por isso que a Semana do MEI tem importância econômica, política e desenvolvimentista.
A forte presença na economia
Do ponto de vista econômico, o MEI representa uma das maiores forças de formalização do país. É a porta de entrada de milhões de brasileiros no CNPJ, na emissão de nota, na contribuição previdenciária, no acesso a serviços financeiros e na tentativa de construir previsibilidade. O problema é que formalizar é apenas o primeiro degrau. Depois dele vem a parte mais difícil: sobreviver.
Abrir um CNPJ virou relativamente simples. Manter um negócio vivo continua sendo uma travessia de rio cheio.
O microempreendedor precisa vender, precificar, comprar melhor, controlar estoque, divulgar, atender, negociar, pagar imposto, lidar com plataformas digitais, aprender redes sociais, entender fluxo de caixa e ainda sorrir para o cliente. É empresário, contador, vendedor, entregador, marqueteiro e psicólogo de balcão, tudo na mesma pessoa física, com um CNPJ pendurado no pescoço.
Por isso, capacitação não é detalhe. É política econômica na veia.
Uma oficina de gestão financeira pode significar a diferença entre lucro e ilusão. Uma consultoria de marketing digital pode transformar um negócio invisível em uma operação com clientela recorrente. Uma palestra sobre inteligência artificial pode parecer distante para quem vende no bairro, mas pode ajudar esse empreendedor a fazer cardápio, criar anúncio, controlar agenda, responder cliente e ganhar produtividade.
O pequeno negócio não precisa apenas de coragem. Coragem ele já tem de sobra. Precisa de método.
A necessidade de políticas reais
E aqui entra a dimensão política. Durante muito tempo, o debate público brasileiro tratou o pequeno empreendedor como personagem decorativo de discurso eleitoral. Em campanha, todo mundo ama o pequeno negócio. No governo, a coisa muda, sobra burocracia, falta crédito, falta segurança jurídica, falta política de produtividade.
O MEI costuma ser lembrado quando convém e esquecido quando atrapalha. É saudado como herói no palanque, mas enfrenta sozinho a selva do mercado no dia seguinte.
A Semana do MEI, ao contrário, aponta para uma direção mais correta: aproximar entidade empresarial, sistema de apoio técnico e empreendedor real. A CDL/BH, ao abrir sua estrutura para esse público, reforça algo essencial. O comércio formal e o microempreendedor não vivem em mundos separados. Eles fazem parte do mesmo ecossistema urbano. O salão de beleza movimenta a rua. A loja de bairro segura o emprego local. O prestador de serviço mantém renda circulando perto de casa. A pequena venda compra de fornecedores, paga aplicativos, contrata freelancer, usa maquininha, alimenta bancos, marketplaces e plataformas.
O desenvolvimento urbano não nasce apenas de grandes obras, grandes plantas industriais ou grandes anúncios oficiais. Ele nasce também da multiplicação de pequenas atividades produtivas que mantêm a cidade funcionando.
Belo Horizonte precisa enxergar isso com mais ambição
Uma capital em que comércio e serviços têm peso decisivo na economia não pode tratar o MEI como um detalhe estatístico. O MEI é parte da estratégia de desenvolvimento. Está na Savassi, no Barreiro, em Venda Nova, no Centro, no Santa Tereza, no Aglomerado da Serra, no bairro nobre e na periferia. Está no almoço vendido por encomenda, no conserto de ar-condicionado, na maquiagem de noiva, na manutenção predial, no delivery, no brechó online, na pequena loja de moda, na feira, na oficina, na aula particular.
Esse é o tecido produtivo da cidade. Não é glamouroso como inauguração de viaduto, nem rende fotografia com capacete branco, mas sustenta renda, consumo e mobilidade social.
Um olhar desenvolvimentista
Capacitar o MEI é aumentar produtividade na base. E produtividade é o nome adulto do crescimento econômico.
O Brasil fala muito em crescimento, mas fala pouco em produtividade. Fala muito em crédito, mas pouco em gestão. Fala muito em empreendedorismo, mas pouco em sobrevivência empresarial. O resultado é conhecido, muita gente abre empresa por necessidade, mas fecha antes de amadurecer. O sonho vira boleto. O CNPJ vira angústia. E o empreendedor, que deveria estar crescendo, passa a correr atrás do prejuízo.
Minas Gerais, segundo levantamento do Sebrae Minas com base em dados da Receita Federal, abriu mais de 532 mil empresas em 2025, praticamente mantendo o ritmo do ano anterior, e terminou o ano com saldo positivo de 215 mil empresas. É um sinal de vitalidade empreendedora, mas também um alerta, abrir muito não basta; é preciso fazer sobreviver, sofisticar, integrar e escalar.
É aí que eventos como a Semana do MEI ganham relevância prática.
Não se trata apenas de ensinar o empreendedor a preencher formulário ou emitir nota. Trata-se de empurrar uma economia de sobrevivência para uma economia de crescimento. De tirar o pequeno negócio do improviso permanente. De mostrar que planejamento não é luxo de empresa grande. De ensinar que fluxo de caixa é tão importante quanto vender muito. De mostrar que presença digital não é vaidade, é vitrine. De lembrar que atendimento é tecnologia humana. E de provar que desenvolvimento começa quando o trabalhador deixa de apenas apagar incêndios e passa a construir futuro.
Há também um aspecto social que precisa ser dito sem romantismo. O MEI muitas vezes é o abrigo possível para quem não encontra espaço no mercado formal. É a saída de quem perdeu emprego, de quem precisa complementar renda, de quem cuida da família, de quem envelheceu para o mercado tradicional, de quem não pode esperar concurso, carteira assinada ou milagre macroeconômico.
Mas isso não pode virar desculpa para a precarização. O MEI não pode ser tratado como substituto barato de emprego formal nem como esconderijo estatístico para fragilidades do mercado de trabalho. Ele deve ser uma ponte para autonomia, renda e crescimento, não uma gambiarra institucional para mascarar a falta de oportunidades.
Por isso, a política pública correta deve ter dois olhos: um na formalização e outro na qualidade dessa formalização.
É preciso crédito orientado, educação financeira, inclusão digital, simplificação tributária, segurança jurídica, compras públicas acessíveis, integração com cadeias produtivas locais e ambiente urbano favorável. Não adianta estimular o microempreendedor e abandonar a cidade ao caos com calçada ruim, insegurança, burocracia, trânsito desorganizado, fiscalização confusa e centro degradado também são impostos invisíveis sobre o pequeno negócio.
O desenvolvimento do MEI depende de um ambiente de cidade que funcione.
A CDL/BH, ao lado do Sebrae Minas, cumpre um papel importante ao colocar esse tema no centro da agenda. E faz isso em boa hora. Belo Horizonte precisa discutir menos apenas o empreendedorismo como palavra bonita e mais o empreendedorismo como política de desenvolvimento.
Porque o MEI não é só o pequeno. Ele é o começo.
É ali que muita empresa nasce. É ali que muita família se sustenta. É ali que muita mulher conquista autonomia financeira. É ali que jovens testam ideias. É ali que trabalhadores experientes se reinventam. É ali que a economia local respira quando o grande investimento demora, quando o crédito aperta, quando o emprego formal encolhe, quando o país patina.
A Semana do MEI, portanto, é mais do que uma agenda de cursos. É um chamado.
Um chamado para que Belo Horizonte olhe para seus 294 mil microempreendedores não como estatística de rodapé, mas como força produtiva estratégica. Um chamado para que Minas entenda que 1,8 milhão de MEIs não são apenas CNPJs espalhados em planilhas. São pessoas tentando transformar trabalho em renda, renda em estabilidade, estabilidade em futuro.
O Brasil costuma esperar grandes planos nacionais, grandes reformas salvadoras, grandes pacotes econômicos. Mas, muitas vezes, o desenvolvimento começa menor, mais perto, quase silencioso. Começa numa oficina gratuita, numa orientação sobre preço, numa nova forma de vender, numa planilha aprendida, num cliente conquistado, numa porta que continua aberta.
O MEI é pequeno no nome. Na economia real, é gigante.
