Um estudo sobre a gig economy na América Latina, modelo de trabalho baseado em atividades temporárias, projetos curtos ou serviços sob demanda, frequentemente mediados por plataformas digitais, revelou que o Brasil concentra alguns dos principais desafios enfrentados por motoristas de aplicativos na região, especialmente em relação à renda, proteção social e planejamento financeiro de longo prazo.
O levantamento, intitulado “Navegando pela gig economy da América Latina: visões dos motoristas da Uber sobre necessidades, riscos e oportunidades”, analisou dados de milhares de motoristas em países como Brasil, Chile, Colômbia, México, Costa Rica, Equador e República Dominicana.
O objetivo foi compreender o perfil socioeconômico desses trabalhadores, os riscos da atividade e as oportunidades de políticas públicas para ampliar a proteção social.
Brasil tem maior número de motoristas na amostra
Segundo o relatório, o Brasil concentrou o maior número de participantes da pesquisa, com 2.069 motoristas entrevistados, seguido por Chile e Colômbia.
A análise buscou entender fatores como:
- renda média dos motoristas
- acesso à previdência e saúde
- intenção de permanecer na atividade
- capacidade de poupança
- percepção de riscos financeiros
Os dados indicam que o país tem um cenário complexo dentro da economia de plataformas.
Renda média dos motoristas brasileiros
O estudo aponta que os motoristas brasileiros apresentaram renda média mensal de cerca de US$ 561, o equivalente a R$ 2.972,46, valor inferior ao registrado em outros países da região, como:
- Chile: US$ 664 (R$ 3.520,26)
- Costa Rica: US$ 808 (R$ 4.283,70)
Além disso, o levantamento mostra que, apesar de a média brasileira parecer relativamente alta dentro do estudo, a mediana é menor, o que indica forte desigualdade entre os ganhos dos motoristas.
Falta de proteção social preocupa
Um dos pontos que mais chama atenção no estudo é a baixa cobertura previdenciária e de saúde entre motoristas de aplicativos no Brasil.
Segundo os pesquisadores, 31% dos motoristas brasileiros não possuem cobertura de saúde adequada, mesmo com a existência do SUS. Muitos trabalhadores atuam sem contribuição regular para a previdência e há insegurança sobre aposentadoria e proteção futura
O estudo aponta que muitos motoristas não enxergam a aposentadoria como uma prioridade imediata, o que aumenta o risco de vulnerabilidade no longo prazo.
Motoristas brasileiros querem permanecer na atividade
Apesar dos desafios, o levantamento revela que 43% dos motoristas no Brasil afirmam que pretendem continuar na atividade no longo prazo, um dos maiores índices da região.
Entre os principais motivos citados estão:
- autonomia para organizar o próprio horário
- possibilidade de combinar a atividade com outros trabalhos
- falta de alternativas formais de emprego
Essa característica reforça o papel da gig economy como fonte estrutural de renda para parte da população, e não apenas como trabalho temporário.
Baixa capacidade de poupança
Outro dado relevante diz respeito à capacidade de poupança. No Brasil, apenas 11,1% dos motoristas conseguem poupar regularmente, um dos índices mais baixos entre os países analisados. Isso reforça a vulnerabilidade financeira de trabalhadores que dependem da renda obtida em plataformas digitais.
Regulamentação ainda é tema em aberto
O relatório também aponta que o Brasil possui um cenário regulatório complexo para o setor.
A legislação permite a operação de aplicativos de transporte, mas as regras variam entre municípios e incluem:
- cobrança de ISS
- exigência de cadastro municipal
- compartilhamento de dados de viagens para fiscalização
Além disso, decisões judiciais recentes reforçam a interpretação de que motoristas de aplicativos não possuem vínculo empregatício, o que mantém o debate sobre direitos trabalhistas em aberto.
Desafio regional
De forma geral, o estudo conclui que a gig economy cresce em toda a América Latina, mas ainda enfrenta desafios estruturais.
Entre eles:
- ausência de sistemas de proteção social adaptados ao trabalho por aplicativo
- renda instável
- falta de planejamento previdenciário
- dependência crescente desse tipo de atividade
Os pesquisadores defendem que governos da região considerem modelos de contribuição flexível para previdência e proteção social, adaptados à realidade do trabalho digital.
Segundo o relatório, esse pode ser um caminho para reduzir a vulnerabilidade financeira de milhões de trabalhadores que hoje dependem da economia de plataformas.
