A confirmação de um caso de sarampo em uma bebê de 6 meses em São Paulo reacendeu o alerta sobre a cobertura vacinal no Brasil. A criança contraiu a doença após viajar com a família para a Bolívia, país que enfrenta um surto desde o ano passado.
Como ainda não tinha idade para receber a vacina, a bebê dependia da chamada proteção coletiva, formada quando a maior parte da população está imunizada e impede a circulação do vírus. Especialistas e autoridades de saúde reforçam que esse bloqueio é essencial para proteger crianças pequenas e outras pessoas que não podem se vacinar.
O alerta ocorre em um momento de pressão crescente nas Américas. Em 2025, foram registrados 14.891 casos de sarampo em 14 países do continente, com 29 mortes. Em 2026, somente até 5 de março, já haviam sido confirmadas 7.145 infecções.
Cobertura vacinal ainda está abaixo do ideal
No calendário do Sistema Único de Saúde, a primeira dose da tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, deve ser aplicada aos 12 meses. Aos 15 meses, a criança recebe a tetraviral, que reforça essa proteção e também inclui catapora.
No ano passado, 92,5% dos bebês receberam a primeira dose. Já a segunda aplicação, no tempo correto, alcançou apenas 77,9%. Esse índice é visto como insuficiente para conter com segurança a circulação do vírus.
Segundo o vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, Renato Kfouri, quando a cobertura vacinal é alta, ela protege também quem ainda não pode ser imunizado.
“A vacina do sarampo também impede a infecção e a transmissão com alta efetividade. Ela tem essa capacidade, que a gente chama de esterilizante. Além de prevenir que a pessoa contraia a doença, ela também evita que essa pessoa seja um portador e transmissor do vírus”, explica.
Brasil segue como área livre, mas está em alerta máximo
Apesar do caso confirmado em São Paulo, o Brasil segue com o certificado de área livre do sarampo, reconquistado em 2024. Isso ocorre porque, até o momento, não há transmissão sustentada da doença no território nacional.
Ainda assim, o Ministério da Saúde mantém vigilância reforçada. Segundo o diretor do Programa Nacional de Imunizações, Eder Gatti, o país está em alerta máximo por causa dos surtos em outros países do continente.
“Por conta do cenário internacional, o Ministério está em alerta máximo. Nós vamos manter essa certificação, mas, para isso, a gente precisa continuar vacinando a população e alertando que a vacina é a principal prevenção, além de promover ações específicas em locais que estão com a cobertura mais baixa”, afirma.
Em 2025, o Brasil confirmou 38 casos de sarampo. Em 2026, o caso da bebê em São Paulo foi o primeiro registro da doença no país.
Bloqueio vacinal entra em ação após casos suspeitos
Segundo o Ministério da Saúde, toda suspeita de sarampo dispara uma operação imediata de resposta. O município faz a notificação, identifica pessoas que tiveram contato com o possível infectado e inicia o bloqueio vacinal.
Nesse processo, profissionais de saúde procuram outros sintomáticos, rastreiam possíveis fontes de infecção e vacinam preventivamente pessoas expostas. Também é feita uma busca ativa em casas próximas, laboratórios e unidades de saúde.
“Pegando como exemplo esse caso confirmado, quando o município fez a identificação da suspeita, prontamente notificou o Ministério e já começou o bloqueio vacinal. Ou seja, levantou todas as pessoas que tiveram contato com o possível doente para identificar outros sintomáticos e eventuais fontes da infecção. Aí, bloqueia-se todo mundo, aplicando a vacina”, explica Eder Gatti.
Nos casos de contato com suspeita ou confirmação, bebês entre 6 meses e 1 ano podem receber a chamada dose zero. Mesmo assim, depois precisam cumprir normalmente o esquema vacinal previsto no calendário.
Doença pode causar complicações graves
O sarampo é uma doença altamente transmissível, especialmente entre pessoas não vacinadas. Os sintomas mais comuns incluem febre alta, manchas vermelhas pelo corpo, tosse, coriza, irritação nos olhos e mal-estar.
Segundo Renato Kfouri, a doença está longe de ser inofensiva. Além de poder causar pneumonia e encefalite, a infecção ainda compromete o sistema imunológico por meses.
“Durante três a seis meses após a infecção pelo sarampo, o nosso sistema de defesa não funciona corretamente, e a gente fica mais vulnerável a ter outras doenças oportunistas infecciosas, que também podem ser graves”, alerta.
De acordo com o especialista, surtos recentes nas Américas mostram que a maioria dos casos ocorreu em pessoas não vacinadas, principalmente crianças com menos de 1 ano.
Viagens internacionais ampliam risco de casos importados
A preocupação das autoridades também se estende ao fluxo de viajantes. O Ministério da Saúde alerta para o risco de importação de casos, especialmente em um cenário de grande circulação entre países do continente.
Segundo Eder Gatti, Estados Unidos, México e Canadá, que enfrentam situações preocupantes em relação ao sarampo, devem receber grande movimento de turistas nos próximos meses. Além disso, o Brasil tem áreas turísticas e regiões de fronteira com intensa circulação de pessoas.
“Por isso, não podemos nunca deixar de falar de sarampo e da vacinação e fazer ações para manter as altas coberturas”, afirma.
Quem deve se vacinar
Crianças vacinadas no tempo certo tendem a ficar protegidas ao longo da vida. Já crianças, adolescentes e adultos sem comprovante de vacinação devem buscar a imunização.
A orientação é de duas doses para pessoas de 5 a 29 anos. Entre 30 e 59 anos, é recomendada uma dose. A vacina não é indicada para gestantes e pessoas imunocomprometidas.
Com Agência Brasil
