Guilherme Lara – O desmanche da ciclovia da Avenida Afonso Pena, iniciado pela Prefeitura de Belo Horizonte no último sábado (13/6), reacendeu a discussão sobre a mobilidade por bicicleta na capital mineira. Mas, para além da polêmica envolvendo uma das principais avenidas da cidade, os números mostram que Belo Horizonte ainda está distante da rede cicloviária prevista em seu planejamento urbano.
O Plano Diretor, aprovado em 2019, prevê a implantação de aproximadamente 411 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas na capital. Sete anos após a aprovação da lei, de acordo com a Prefeitura, a cidade conta com cerca de 120 quilômetros de infraestrutura cicloviária implantada, o equivalente a pouco mais de 29% da meta estabelecida.
A discussão ganhou força após o prefeito Álvaro Damião (União Brasil) acompanhar o início da retirada da ciclovia da Avenida Afonso Pena, na Região Centro-Sul da cidade. Em publicação nas redes sociais, o prefeito afirmou que pretende ampliar o número de ciclovias em Belo Horizonte, mas defendeu que estruturas desse tipo não sejam implantadas em corredores de grande fluxo de veículos, como as avenidas Afonso Pena, Amazonas, Antônio Carlos e Cristiano Machado.
A ciclovia fazia parte do projeto de revitalização da Avenida Afonso Pena, iniciado em 2023 durante a gestão do ex-prefeito Fuad Noman. O projeto previa a implantação de 4,2 quilômetros de infraestrutura cicloviária ao longo da avenida.
Desde sua concepção, a ciclovia dividiu opiniões. Enquanto grupos ligados à mobilidade urbana defendiam a obra como uma conexão estratégica para a rede cicloviária da cidade, críticos argumentavam que a intervenção reduzia espaço para veículos em uma das vias mais movimentadas da capital.
Falta de execução
Para o urbanista e professor da UFMG, Roberto Andrés, a discussão sobre a ciclovia da Avenida Afonso Pena precisa ser analisada dentro de um desafio mais amplo de mobilidade urbana e redução da dependência do automóvel.
“A gente precisa de uma malha cicloviária porque precisa de menos carros nas ruas, menos emissões e menos poluição atmosférica. Cada pessoa que deixa o automóvel e passa a usar a bicicleta representa menos trânsito, menos poluição e menos acidentes. A cidade já poderia ter implantado essa malha de 400 quilômetros. Agora a prefeitura anuncia mais 50 quilômetros com recursos do PAC, mas isso é muito pouco. Ciclovia é uma das infraestruturas urbanas mais baratas de se fazer e não depende de recursos federais para avançar”, afirma.
Para representantes dos ciclistas, o principal problema não está no planejamento da rede cicloviária, mas na dificuldade de transformar as metas previstas em obras efetivamente concluídas.
Segundo Cristiano Scarpelli, do Ciclo Rota BH, o Plano Diretor consolidou uma discussão que vinha sendo construída desde 2007 e contou com ampla participação popular.
“A gente vê uma falta de compromisso dos prefeitos em cumprir uma lei que foi aprovada em 2019, mas que vinha sendo discutida desde 2007 com participação da sociedade. O atual prefeito era vereador quando o Plano Diretor foi aprovado e votou a favor dessa proposta, que previa os locais para implantação dos 411 quilômetros de ciclovias. Infelizmente, na hora de executar, o poder público deixa a desejar”, afirma.
Scarpelli também contesta a ideia de que as ciclovias beneficiam apenas quem utiliza a bicicleta.
“Há uma incompreensão muito grande da sociedade sobre a importância das ciclovias. Além de beneficiar quem pedala, elas ajudam a tirar carros das ruas, melhorando o trânsito. Também trazem benefícios ambientais, paisagísticos e contribuem para a redução de ruídos”, diz.
Na avaliação dele, um dos principais desafios de Belo Horizonte é aumentar a conectividade da rede já existente.
“Falta interligação. Só a ciclovia da Afonso Pena, com 4,2 quilômetros, permitiria conectar pelo menos cinco ou seis trechos que já existem, como a da Rua Professor Moraes e a da Avenida Bernardo Monteiro, que segue até a Avenida dos Andradas e faz ligação com a Região Leste”, argumenta.
A discussão sobre a ciclovia da Avenida Afonso Pena também chegou à Justiça. Entidades ligadas à mobilidade por bicicleta ingressaram com uma ação para tentar impedir a retirada da estrutura. O argumento é que a obra integra um planejamento previsto na legislação municipal e que recursos públicos já foram investidos no projeto.
“O prefeito não pode desfazer nada do que está previsto em lei. Estamos com uma ação na Justiça para impedir que ele retire a ciclovia e pedindo que ele seja responsabilizado pelos recursos públicos já investidos na obra”, afirma Scarpelli.
O que diz a prefeitura
Em nota, a Prefeitura de Belo Horizonte informou que a expansão da rede cicloviária está sendo realizada de forma gradual, priorizando a integração entre os trechos existentes, a ampliação da conectividade e a articulação com o transporte coletivo.
Segundo a administração municipal, a capital teve aprovados recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para implantar mais de 50 quilômetros de ciclovias até 2028. Entre os projetos previstos estão a complementação da ciclovia da orla da Lagoa da Pampulha e a implantação de estruturas cicloviárias nas avenidas Pedro I e Abrahão Caram.
A prefeitura informou ainda que está em andamento a implantação da ciclovia da Rua São Paulo, entre as avenidas Bias Fortes e Augusto de Lima.
Sobre a retirada da ciclovia da Avenida Afonso Pena, a administração municipal afirmou que estudos técnicos indicaram impactos na capacidade viária da região. Segundo a prefeitura, a estrutura reduziu o espaço disponível para o tráfego de veículos e contribuiu para dificuldades operacionais, especialmente nos horários de pico. A gestão também destacou a importância estratégica da avenida para o acesso à região hospitalar da capital.
Enquanto a retirada da estrutura avança, o debate sobre a ciclovia da Avenida Afonso Pena evidencia uma questão mais ampla: o desafio de Belo Horizonte em cumprir as metas estabelecidas para a mobilidade por bicicleta e ampliar uma rede que, sete anos após a aprovação do Plano Diretor, ainda está longe de atingir a extensão prevista.
