Quanto tempo dura a roupa que você compra? A pergunta, simples à primeira vista, está no centro de uma das discussões mais urgentes da indústria da moda — e ganhou destaque nos corredores do Minas Trend 35, o maior salão de negócios de moda da América Latina, realizado entre os dias 14 e 16 de abril no BH Shopping, em Belo Horizonte.
Sob o conceito “Ecos”, que propõe justamente refletir sobre os impactos que cada escolha produtiva gera ao longo de toda a cadeia da moda, a edição colocou a sustentabilidade no mesmo nível que tendências e negócios. E o que se viu foi um setor em transformação: marcas repensando materiais, processos e até o destino final das peças.
“Desde o design até o descarte”: a sustentabilidade como ciclo completo
Para Alice Quadros, representante de negócios do Sebrae, falar em moda sustentável exige olhar para muito além do produto final.
“Moda e sustentabilidade têm que andar juntas. A gente tá falando que desde o momento em que você planeja um produto, o design, o corte, até a pós-produção, em que a gente tem que cuidar com relação à destinação dessas peças, numa possibilidade de reintegrar essas peças na produção”, afirma.
Ela também chama atenção para o novo perfil do consumidor — mais consciente e disposto a pagar mais por escolhas éticas. “O mercado está exigente. O consumidor está exigente. Muitos deles topam pagar até mesmo mais caro por peças que têm origem sustentável. Então, se a gente não se adequar…”, alerta.
O Sebrae, segundo Alice, tem papel central nessa transição, especialmente para as pequenas empresas. “É um cenário de futuro, mais do que nunca, e a gente tem que preparar todas essas empresas, toda a cadeia da moda para a sustentabilidade como um todo”, completa.
Durabilidade como filosofia: a aposta da Garzon
Uma das estratégias mais consolidadas no setor é apostar no produto que resiste ao tempo — tanto no uso quanto no estilo. Ana Garzon, responsável pela Garzon, marca de acessórios de Belo Horizonte, defende que sustentabilidade começa na escolha dos materiais.
“Moda sustentável pode ter vários vieses. O viés que a Garzon atua, com certeza, é na durabilidade do produto. É aquele produto perene, aquele produto que dura muitos anos no armário da mulher”, explica.
Para ela, uma bolsa de couro genuíno é, paradoxalmente, uma escolha mais sustentável do que alternativas sintéticas. “Por exemplo, uma bolsa de couro vai durar para sempre. É um material que não descasca, que tem durabilidade. Hoje a gente ainda não tem um material que substitua com a mesma resistência”, avalia.
A saída da marca é investir em design atemporal. “A gente escolhe fazer um design atemporal, escolher materiais de altíssima qualidade para que a peça realmente tenha durabilidade no armário da cliente”, resume Ana.
Zero carbon e algodão certificado: a Tribo da Preservação como referência
Algumas marcas foram além e estruturaram a sustentabilidade como valor fundador. É o caso da Tribo da Preservação, marca infantojuvenil presente no Minas Trend Kids. Ana Maria, diretora de criação e marketing da marca, explica que a empresa é 100% zero carbono e produzida com energia limpa.
“Todo o algodão que nós usamos tem a certificação BCI — um selo que comprova que não existem químicos danosos na produção e que as relações de trabalho são justas. Esse é um selo super importante para o algodão”, detalha.
A marca também utiliza algodão orgânico e garante que o processo de tingimento seja livre de químicos prejudiciais. “Para nós, sustentabilidade é um valor. Estamos alinhados com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU”, afirma Ana Maria.
Economia circular nos acessórios: o reaproveitamento como solução
Outra frente que ganha força no setor é a chamada economia circular — modelo em que o resíduo de uma etapa vira insumo de outra. A Luzz Acessórios, marca com 25 anos de mercado, adotou essa lógica na prática.
“A sustentabilidade está aqui na nossa marca de uma forma diferenciada. A gente reaproveita todo o material que tem em estoque, tenta reaproveitar tudo. Temos feito trocas com outras empresas de materiais — às vezes uma empresa precisa de um material que eu tenho, a gente faz trocas”, conta a representante da marca.
Peças antigas que dormiam em estoque também ganham nova vida. “Reaproveitamos peças que já fizemos há tempos e que estão em estoque. A gente consegue reutilizá-las de uma outra forma em novas bijuterias”, completa.
O “Ecos” que ressoa além do salão
O conceito desta edição do Minas Trend não poderia ser mais adequado ao debate. Se cada negociação realizada nos estandes do BH Shopping gera impactos que ultrapassam os três dias de evento — como propõe a proposta temática do salão —, a sustentabilidade é exatamente o tipo de escolha cujo eco se espalha por toda a cadeia: do fabricante ao lojista, do lojista ao consumidor, do consumidor ao futuro.
