O nome de Gisele Bündchen está entre os mais buscados do Google nesta semana. O motivo? Uma confissão sobre alimentação feita em seu livro ‘Nutrir: receitas simples para corpo e alma‘ que gerou identificação em muita gente que segue ou já tentou suguir o vegetarianismo e veganismo.
A supermodelo revelou que tentou o veganismo, enfrentou anemia, inchaço e má digestão — e precisou voltar a comer carne vermelha algumas vezes por mês para recuperar o equilíbrio. Mas o que a ciência diz sobre tudo isso? A nutricionista comportamental Cacá Portilho explica.
O que acontece com o corpo de quem volta a comer carne?
Para quem fica anos sem comer carne e retoma o consumo, a experiência pode variar bastante. Cacá, que ela mesma foi vegetariana por mais de cinco anos, explica que não existe uma reação universal.
“Basicamente não existe algo que acontece no estômago ou no intestino de todo mundo que volta a comer carne depois de alguns anos”, afirma. O que ela observa na prática com seus pacientes é que alguns sentem enjoo ou alterações no intestino, especialmente com a carne vermelha. “É um alimento saudável sim, mas é mais complexa a digestão”, explica.
O tipo de corte e o preparo também influenciam. Carnes mais gordurosas, ainda mais quando preparadas com manteiga ou muito óleo, podem intensificar esse desconforto momentâneo.
Vegetariano vira anêmico?
Um dos pontos mais debatidos quando o assunto é dieta sem carne é o risco de anemia — exatamente o problema que Gisele enfrentou. Mas Cacá alerta: isso não é uma regra.
“A anemia pode ser um risco, mas não é garantido que quem é vegetariano ou vegano vai ser anêmico. Muitas vezes as pessoas acham isso pelo senso comum”, diz a nutricionista.
O que acontece, segundo ela, é que muitos indivíduos que param de comer carne não conhecem as estratégias nutricionais para absorver o ferro vegetal. E aqui está a diferença crucial: o ferro da carne vermelha é absorvido de forma simples pelo organismo, enquanto o ferro vegetal — presente no feijão, no brócolis, no melado de cana e em plantas como a ora-pro-nóbis — precisa de um “adaptador”.
“Pensa como se o ferro vegetal fosse um carregador de tracinhos e a vitamina C fosse o adaptador. Sem ele, o ferro não consegue entrar na sua célula”, explica Cacá. A solução é simples: consumir uma fonte de vitamina C junto com os alimentos ricos em ferro vegetal.
Em casos de tendência à anemia ou ferritina já baixa, a suplementação pode ser necessária — e é aí que o acompanhamento com nutricionista faz toda a diferença.
Inchaço e gases: o lado B da dieta vegana
O desconforto relatado por Gisele — gases e inchaço por consumir muitos grãos — é mais comum do que parece. Cacá confirma que isso acontece com frequência em dietas veganas e vegetarianas, mas não só nelas.
“Não só em veganos e vegetarianos, mas também em pessoas que comem muita fibra de forma geral”, explica. O problema está nas fibras fermentáveis, ricas em FODMAPs, muito presentes nesse tipo de alimentação. Frutas em excesso, legumes e produtos integrais — escolhas típicas desse público — somam ainda mais fibra ao cardápio.
O resultado é uma fermentação intensa no intestino, que gera desconforto abdominal, gases e inchaço, resume a especialista.
Comer carne com equilíbrio: o meio-termo que funciona
A abordagem flexível adotada por Gisele — vegetais como base, carne vermelha algumas vezes por mês — tem respaldo nutricional. Para Cacá, o equilíbrio é sempre o caminho.
“Se escolher usar a carne no dia a dia, sempre recomendo incluir de duas a três vezes na semana, para garantir os nutrientes dela e não ser prejudicial pro seu intestino”, orienta. O principal benefício da carne, segundo ela, é a praticidade para atingir a quantidade de proteína necessária. Mas isso também é possível em dietas vegetarianas — desde que haja orientação e atenção.
O arroz com feijão como resposta brasileira
Para fechar, Cacá lembra que a dieta tradicional brasileira já oferece, naturalmente, muito do que dietas veganas buscam alcançar com suplementação.
“Um prato de arroz com feijão forma uma proteína completa, mesmo sem carne”, destaca. Além de nutritivo, o prato é acessível — da periferia às casas mais ricas — e carregado de significado cultural.
“O comer não é só sobre o que comemos, mas por que comemos. E quando falamos de uma causa animal, ecológica, social ou religiosa, tudo isso leva a gente a optar ou não por determinados alimentos no dia a dia”, reflete a nutricionista, que indica o Guia Alimentar para a População Brasileira, documento gratuito do governo, para quem quer aprender mais sobre alimentação de forma acessível.
