O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu nesta segunda-feira (25/05) uma reaproximação entre Brasil e países africanos durante a abertura do 1º Fórum de Reitores Brasil-África, realizado em Brasília. No discurso, Lula afirmou que o Brasil possui uma “dívida histórica” com o continente africano por causa dos mais de 350 anos de escravidão no país.
O evento aconteceu justamente no Dia da África, data que marca a criação da Organização da Unidade Africana, atual União Africana, em 25 de maio de 1963.
“O Brasil não pode esquecer nunca o compromisso histórico que nós temos com a África. Histórico. Compromisso muito forte”, declarou o presidente.
O fórum reúne representantes de universidades brasileiras e africanas até o dia 27 de maio para discutir cooperação acadêmica, científica e tecnológica entre os países.
Lula critica colonialismo e defende fortalecimento da relação com a África
Durante o discurso, Lula afirmou que países africanos e latino-americanos ainda enfrentam consequências do colonialismo e criticou a lógica de dominação cultural imposta historicamente pelas potências europeias.
O presidente também ressaltou que o Brasil não pode abandonar a relação histórica com o continente africano e defendeu a ampliação da cooperação política, econômica e acadêmica entre os países.
“O Brasil não pode esquecer nunca o compromisso histórico que nós temos com a África. Não só porque nós estamos muito próximos, mas porque nós temos uma dívida com o continente africano, uma dívida de 350 anos de escravidão que fez do nosso país o que nós somos. A coisa mais extraordinária que resultou desses 350 anos de escravidão foi a possibilidade da miscigenação do nosso povo, a mistura do povo africano com os indígenas brasileiros e mais tardiamente com os europeus. Criou o que nós somos do ponto de vista da nossa cultura”, afirmou Lula.
Na sequência, o presidente também criticou setores da extrema direita e afirmou que universidades têm papel fundamental no combate às desigualdades e ao autoritarismo.
“A extrema direita teme a educação porque sabe que é onde nasce a consciência. O pensamento crítico caminha lado a lado com a luta anticolonial e o combate ao racismo, à misoginia, à xenofobia e todas as formas de discriminação. As universidades seguirão como bastiões da resistência”, declarou.
Ministra da Igualdade Racial defende educação como reparação histórica
A ministra da Igualdade Racial, Rachel Barros, afirmou que o fortalecimento das relações entre Brasil e África passa diretamente pela educação, pela memória e pela reparação histórica.
Ela também destacou políticas afirmativas implementadas pelo governo federal e defendeu maior integração acadêmica entre países africanos e latino-americanos.
“A África é resistência. A África é o marco de tudo que somos e essa compreensão permite o resgate da verdadeira história, promovendo memória e buscando reparar séculos de escravização a que o povo afrodescendente foi submetido. E se estamos aqui no Dia da África abrindo este fórum, é porque a educação é o fio transformador mais eficaz para ressignificar a realidade, promover igualdade e dignidade para todas as pessoas no Brasil, na África e no mundo”, afirmou.
A ministra também citou a renovação da lei de cotas e o programa de intercâmbio Sul como ferramentas para ampliar o acesso à educação e fortalecer a cooperação internacional.
Representantes africanos defendem cooperação acadêmica e científica
O secretário-geral da Associação das Universidades Africanas, Olusola Oyewole, afirmou que a África enfrenta desafios estruturais nas áreas de saúde, clima e segurança alimentar e defendeu maior aproximação entre universidades africanas e brasileiras.
“A África hoje enfrenta vários desafios, questões de saúde, de clima, insegurança alimentar e acreditamos que quando estamos desenvolvendo as nossas universidades, desenvolvemos a África. Precisamos descolonizar o nosso currículo, melhorar as nossas atividades de pesquisa e precisamos de países como o Brasil para apoiar esse processo”, declarou.
Já a reitora da Universidade Pública de Cabo Verde, Astrigilda Pires Rocha Silveira, afirmou que Brasil e países africanos precisam ampliar projetos conjuntos em áreas como inovação, inteligência artificial, pesquisa e empreendedorismo.
“Brasil e Cabo Verde partilham história, mas acima de tudo partilham futuro. Esse futuro exige universidades mais conectadas, mais inovadoras e mais empreendedoras. Queremos ampliar a mobilidade acadêmica, fortalecer a investigação colaborativa e investir cada vez mais na formação avançada de docentes e investigadores”, afirmou.
Brasil ampliou relações diplomáticas e comerciais com países africanos
Esta segunda-feira (25) marca o Dia da África, continente com o qual o Brasil tem intensificado relações durante o atual governo Lula.
O movimento faz parte de uma estratégia do governo federal para diversificar parceiros comerciais e ampliar laços culturais, diplomáticos, científicos e históricos com países africanos.
Desde o início do terceiro mandato, Lula realizou sete viagens ao continente africano, incluindo duas visitas à África do Sul, além de agendas em Angola, São Tomé e Príncipe, Egito, Etiópia e Moçambique.
Nos últimos três anos, o Brasil também firmou acordos com países africanos em áreas como agricultura, aviação civil, defesa, saúde, educação e turismo.
Além das viagens internacionais, o presidente recebeu em Brasília seis chefes de Estado africanos neste mandato, entre eles Patrice Talon, Bola Tinubu e João Lourenço, em encontros que resultaram na assinatura de acordos e memorandos de entendimento entre os países.