PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Lei da “adultização” pode virar lei da censura

Siga no

Reprodução / @Felcaaseita | Mário Agra / Câmara dos Deputados

Compartilhar matéria

A Câmara dos Deputados aprovou, em tom de urgência e com rara unanimidade, o chamado ECA Digital, um projeto de lei que, em tese, pretende proteger crianças contra conteúdos nocivos na internet. A intenção soa nobre, quase irretocável: combater assédio, pornografia, exploração, exposição precoce e outras chagas digitais que rondam a infância. Até aqui, quem discordaria?

Mas é preciso tirar a maquiagem desse consenso. O diabo, como sempre, mora nos detalhes.

A proposta amplia o poder do Estado, e de uma futura agência reguladora autônoma, para determinar o que pode ou não circular nas redes. Em nome da “proteção de menores”, abre-se a brecha para que plataformas sejam obrigadas a remover conteúdos sem ordem judicial. Parece pouco? É a semente da censura, plantada em solo fértil.

Hoje o alvo é a pornografia infantil, um inimigo óbvio e justo. Amanhã, quem garante que não serão opiniões políticas, críticas a autoridades ou conteúdos incômodos ao poder? A linha entre defesa da infância e controle do discurso público é mais fina do que se imagina.

O argumento paternalista

É claro que crianças precisam de amparo, e o ambiente digital está longe de ser um playground inocente. Mas a responsabilidade primeira é da família, não do Estado. A lei transfere para burocratas e algoritmos uma missão que deveria começar em casa, com diálogo, supervisão e educação digital.

Ao empoderar uma nova estrutura estatal para “vigiar” conteúdos, corre-se o risco de transformar o que era proteção em paternalismo sufocante, e de quebra, criar mais um balcão de poder onde grandes plataformas e governos negociam os limites do que podemos ver e dizer.

A aprovação quase sem divergências no Congresso deveria soar como um alarme, não como aplauso. Quando governistas e opositores encontram um terreno comum rápido demais, quase sempre é porque o custo do acordo será pago pela sociedade, em parcelas longas e pesadas.

O combate à “adultização” é legítimo. Mas a lei que nasceu com esse nome pode se tornar um cavalo de Troia da regulação digital. Sob o pretexto de proteger crianças, acabamos legitimando mecanismos de censura preventiva, que depois servirão para calar vozes críticas, restringir o debate e domesticar as redes sociais.

A boa intenção é o verniz. A consequência pode ser um ambiente menos livre para todos. Proteger a infância é prioridade, sim. Mas não ao custo de transformar o país em tutor digital de seus cidadãos. O risco de que essa lei vire uma porta aberta para a censura é real, e a democracia no Brasil já tem cicatrizes demais para se arriscar a ganhar mais uma.

Compartilhar matéria

Siga no

Paulo Leite

Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

Webstories

Mais de Entretenimento

Mais de 98

Heranças e doações em Minas: o que muda com o novo projeto do ITCD

A estrada que ela denunciava foi a mesma que tirou sua vida

A nova obsessão produtiva que nasce no coração do Vale do Silício

Escala 6×1: o Brasil precisa de menos paixão ideológica e mais racionalidade

Não é venda de escola. É tentativa de fazer a escola funcionar.

O Brasil desaprendeu a conviver com a discordância

Últimas notícias

Governo e oposição divergem após rejeição de Messias no Senado

‘É uma resposta ao governo’, diz Flávio Bolsonaro após rejeição de Jorge Messias ao STF

Senado rejeita indicação de Jorge Messias ao STF em votação histórica

Advogada explica possíveis penas para torcedor do Boca após gestos racistas em jogo contra o Cruzeiro

Hulk se acerta com o Fluminense e encaminha rescisão com o Atlético 

Cruzeiro pedirá medidas de segurança à Conmebol após casos de racismo em partida contra o Boca

CCJ aprova Jorge Messias para vaga no STF

Após decisão do CAS, Atlético terá que quitar dívida milionária por Scarpa

Messias promete rigor e uma ‘conduta conservadora’ para julgar possíveis irregularidades de membros do STF