Um “super El Niño” pode atingir o planeta entre o fim de 2026 e o início de 2027 e se tornar um dos eventos climáticos mais intensos já registrados desde o século XIX. O alerta vem sendo reforçado por centros internacionais de meteorologia e também por especialistas brasileiros.
O debate sobre o tema ganhou força nas redes sociais após a circulação de um vídeo do empresário e fundador do portal ICL Notícias, Eduardo Moreira. Na publicação, ele afirma que cientistas internacionais já alertam para a possibilidade de um evento climático extremo e critica a falta de debate público sobre o tema. O vídeo cita estudos e projeções climáticas que apontam para um El Niño de intensidade muito forte, com potencial de provocar impactos severos em diferentes regiões do planeta.
Segundo previsão divulgada pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), existe 65% de chance de o próximo El Niño atingir intensidade forte ou muito forte entre outubro de 2026 e fevereiro de 2027.
O fenômeno é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, alterando padrões atmosféricos e afetando o clima em diferentes partes do mundo.
“O El Niño é um fenômeno atmosférico-oceânico caracterizado por um aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico Equatorial, chegando desde a costa peruana até o Pacífico Central”, explicou o professor Wellington Lopes Assis, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Segundo o pesquisador, esse aquecimento altera a circulação atmosférica global, modificando ventos, chuvas e temperaturas em diversas regiões do planeta.
Modelos apontam possibilidade de El Niño extremo
De acordo com Wellington Lopes Assis, os principais institutos meteorológicos já apontam forte probabilidade de um El Niño intenso começar ainda no segundo semestre deste ano e permanecer até 2027.
“A chance do El Niño começar efetivamente já agora no final das últimas semanas de maio e se estender até o primeiro semestre de 2027 é muito grande”, afirmou.
O professor explica que o fenômeno pode variar de intensidade, mas os modelos atuais já projetam um cenário considerado “muito forte”, com aquecimento acima de 2°C em relação à média histórica.
“Alguns modelos falam até em um El Niño extremo, com anomalia de temperatura acima de 3°C no Pacífico Equatorial. Talvez seja um dos mais fortes registrados nos últimos 100 anos”, disse.
Brasil pode enfrentar secas, enchentes e ondas de calor
Os impactos do El Niño variam conforme a região do Brasil. Segundo o especialista, a Região Sul tende a registrar aumento no volume de chuvas, elevando o risco de enchentes, temporais e transbordamentos de rios.
Já as regiões Norte e Nordeste podem enfrentar secas severas, estiagens prolongadas, redução da vazão da Bacia Amazônica e aumento do risco de queimadas e incêndios florestais.
Na Região Sudeste e no Centro-Oeste, a tendência é de temperaturas acima da média e ocorrência de ondas de calor, além de atraso e irregularidade no período chuvoso.
“Isso acaba impactando a geração de energia, a agricultura e todos os setores que dependem da regularidade das chuvas”, afirmou Wellington.
Especialista pede preparação do poder público
O professor da UFMG defende que governos municipais, estaduais e federal se preparem para possíveis impactos do fenômeno climático.
“Por falta de aviso, o poder público não será pego de surpresa. É necessário fazer o dever de casa antes e se planejar para esse tipo de impacto”, afirmou.
Segundo ele, setores como agricultura, abastecimento de água e geração de energia podem ser diretamente afetados.
“O Centro-Oeste e o Sudeste concentram grande parte da produção agrícola nacional e podem sofrer com quebra de safra por causa da seca. Já no Sul, o excesso de chuva também pode causar prejuízos”, explicou.
Evento pode ter impacto humanitário global
A NOAA afirma que existe 82% de chance de o El Niño se consolidar entre maio e julho deste ano e permanecer ativo até fevereiro de 2027.
O relatório internacional também alerta para possíveis impactos econômicos e humanitários em diferentes países, principalmente em regiões já vulneráveis à insegurança alimentar e crises climáticas.
Especialistas internacionais chegaram a comparar o cenário atual ao evento extremo de 1877, associado a uma grande fome global que matou milhões de pessoas.
Apesar disso, Wellington Lopes Assis destaca que o El Niño não atua sozinho e que outros fatores atmosféricos e oceânicos também influenciam o comportamento climático.
“Não existe somente o El Niño interferindo no clima. A temperatura do Atlântico, por exemplo, pode modular a intensidade dos impactos. Por isso, é importante monitorar constantemente todos esses sistemas”, afirmou.